magic music
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DANÇAS OCULTAS
 
     
DANÇAS OCULTAS

Pulsar é o nome atribuído aquelas distantes estrelas de neutrões cuja existência testemunhamos devido à radiação (luminosa, mas também sonora) que elas emitem em ciclos regulares.
Pulsar é também o título dado ao terceiro álbum de originais do quarteto Danças Ocultas – embora, neste caso, por motivos aparentemente diversos. De facto, na língua portuguesa, este nome também indica o batimento do coração, ou um certo ritmo interior. E, como curiosidade adicional, é uma palavra que integra (mas ultrapassa) o título do anterior trabalho do grupo, o disco de 1998 a que chamaram «Ar». Indica-nos assim um momento de maior maturidade e equilíbrio, patente num superior trabalho de composição, no aperfeiçoamento da execução, e no diálogo com uma variedade de linguagens e tradições musicais. Em suma, um momento de abertura ao mundo.
O que aproximou Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel foi um interesse comum pela recuperação de um instrumento em desuso – o acordeão diatónico, em Portugal conhecido como «concertina» - e a aceitação mútua do desafio de explorar, imaginar e conceber novas linguagens musicais, transformando o mundo pelo som e desenvolvendo todas as possibilidades daquela máquina inventada no século XIX.

Começaram por adaptar ao instrumento diversos trechos de música clássica – a Aida de Verdi, algum Bach, o Also Spracht Zarathustra de Strauss – e apresentaram-se pela primeira vez ao vivo em Maio de 1989, no cine-teatro da cidade de Aveiro. Depois, começaram a procurar criar um repertório próprio. E em 1992 viajaram até Évora para assistirem a um concerto de Riccardo Tesi, que os influenciaria profundamente ao confirmar as suas intuições iniciais de que era possível descobrir algo de novo com aquele instrumento aparentemente ultrapassado. Procuraram depois um nome que forçasse as pessoas a pensarem no sentido que ele tinha – e por isso escolheram Danças Ocultas, visto ser uma forma de indicar que criavam músicas para danças que ainda não haviam sido inventadas.
Só em 1993 Artur Fernandes mostrou algumas gravações dos Danças Ocultas a Rodrigo Leão, o qual, entusiasmado, apresentou o grupo a Gabriel Gomes, então acordeonista dos Madredeus. Gabriel incitou-os a comporem mais material original e a desenvolverem uma linguagem própria. Numa célebre noite de Maio de 1994 actuaram em Braga com os Madredeus, e passaram depois a madrugada a tocarem o seu repertório nos lavabos do hotel, enquanto Gabriel Gomes registava a sessão em DAT. Face às reservas do engenheiro de som António Pinheiro da Silva acerca da afinação, no mês seguinte procederam a uma primeira alteração técnica, modificando o timbre dos instrumentos de forma a melhorarem a harmonia. Depois desceram a Lisboa, onde passaram algumas semanas em ensaios com Gabriel Gomes, antes de se encerrarem no estúdio Angel 1 com António Pinheiro da Silva para as gravações daquele que viria a ser o seu álbum de estreia. Em 1995 surgem as primeiras entrevistas com o grupo, enquanto este procura negociar um contrato para edição discográfica. O álbum, sem outro título além do nome do grupo, foi finalmente publicado em Fevereiro de 1996 pela EMI-Valentim de Carvalho, embora datado do ano anterior.

Reconhecida unanimemente como um dos melhores discos do ano, esta obra – onde predominam as composições de Artur Fernandes - motivou então uma série de concertos e apresentações públicas, que depressa se estenderiam ao estrangeiro: em 1997 são convidados a participar em diversos festivais internacionais, que se estendem por Espanha, Marrocos, França e Bélgica.
Esse confronto com outros palcos e outros públicos suscitará neles a necessidade de imprimir uma maior dinâmica ao som do grupo. Precisavam de mais notas nos graves. Introduzem então a segunda alteração técnica, criando um instrumento improvável, e até então inexistente: a concertina-baixo – que, não se destinando a um solista, só faz sentido num ensemble e passa a ser executada por Filipe Ricardo.
É já com esse som que, entre Dezembro de 1997 e Janeiro de 1998, os Danças Ocultas gravam um segundo lote de composições originais, onde o colectivo começa a influir mais no trabalho de composição e se torna manifesta a vontade de aproximarem a música que fazem a outras tradições, a outras artes e mesmo a outros horizontes estéticos. Publicado antes do Verão desse ano, e também produzido por Gabriel Gomes, o álbum «Ar» iniciava-se com o tema «Escalada», um tributo ao mestre argentino Astor Piazzolla, e incluía uma música de cena («Hinos à Noite») criada para uma peça teatral de Filipe Pereira, bem como dois temas que integraram a banda sonora do filme «Mortinho por Chegar a Casa», de Carlos da Silva e George Sluizer.

Para além de novos concertos, digressões e participações em festivais, este arrojo estético trouxe-lhes novos desafios. Em 2001, o coreógrafo Paulo Ribeiro convidou-os, não apenas a comporem novas músicas para o próximo espectáculo da sua companhia, mas a integrarem também a própria coreografia. A necessidade de se movimentarem em palco e de abandonarem a posição tradicional, sentada e estática, implicou portanto diversas alterações, tanto ao nível tecnológico (por exemplo, nos sistemas de captação de som) como no da própria técnica de execução e, portanto, na composição. Entretanto, os cinco temas originais que criam para a peça «Tristes Europeus» juntam-se ao novo repertório que vão preparando, e que se enriquece com todos os contactos acumulados durante a extensa digressão com a companhia de Paulo Ribeiro (o qual voltará a convidá-los em 2004 para participarem ao vivo na coreografia «White», desta vez com o Ballet Gulbenkian). Entretanto, em 2002 a editora L’Empreinte Digitale publica em França uma compilação de temas extraídos dos dois primeiros álbuns, sob o título «Travessa da Espera»
Sem contrato discográfico, apostam então em produzir a expensas próprias o seu terceiro álbum de originais – processo que ficou documentado no livro «Alento», de Jorge P. Pires (texto) e Duarte Belo (fotografia), publicado em Novembro de 2003 pela Assírio e Alvim, onde a aventura dos Danças Ocultas serve de eixo a uma viagem imaginária em torno do ar, das suas qualidades, e da importância deste nas civilizações e nas músicas do mundo, com particular destaque para a Europa, a pátria da concertina.

Finalmente gravado em Lisboa, nos estúdios O Circo Voador, entre o final de 2003 e o início de 2004, «Pulsar» dá forma ao que Artur Fernandes já anteriormente resumira numa frase: «Somos uma síntese de experiências». Produzido ainda por Gabriel Gomes, e misturado por António Pinheiro da Silva, «Pulsar» teve a participação de uma extensa galeria de convidados, que incluiu, entre outros, o músico e cantor sírio Abed Azrié, o bandolinista brasileiro Edu Miranda, os Gaiteiros de Lisboa, os percussionistas José Salgueiro e Rui Júnior, o contrabaixista António Augusto Aguiar, a cantora Maria João e o pianista Mário Laginha.
Aludindo a motivos e a experiências captadas em diversos pontos do globo, e com elas construindo um sólido discurso musical, os catorze temas aqui reunidos registam assim o estádio actual de uma aventura sonora já com década e meia de existência, e desde sempre marcada pelo progressivo distanciamento do registo «natural» da concertina, bem como pela busca de um constante diálogo com o mundo – e as músicas – do nosso tempo. Além disso, provam que a concertina continua a ser uma máquina de produzir sonhos; e, por conseguinte, de inventar futuros possíveis, de construir sentidos.